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Adoção Moral, ajuda de americanos às crianças órfãs, vítimas do bombardeio de Hiroshima

Nos últimos dias, mídias do mundo inteiro voltam suas atenções para o assunto relativo aos 70 anos da bomba de Hiroshima.
E ao ler um artigo do The Wall Street Journal, deparei com mais uma história vivida em consequência da bomba e um trecho ali relatado, sobre adoção moral, chamou minha atenção.
Fiquei muito curiosa - até então desconhecia - e fui buscar informações, que hoje compartilho. 
Até hoje, dia 5 de agosto, véspera de completar os 70 anos do lançamento da bomba sobre Hiroshima, não havia nenhuma informação em português, encontrei somente em sites japoneses.

Adoção Moral não é algo legal, é um ato de apadrinhamento de crianças, como acontece no Brasil, em orfanatos, creches, dando-lhes apoio moral e financeiro.

A bomba em Hiroshima deixou marcas cruéis, como sabemos, em todas as faixas de idade, porém as crianças órfãs foram as mais preocupantes. Levadas aos abrigos de evacuação, muitos pediam por suas mães. 
Inicialmente, 4 dias depois, uma escola passou a ser um centro de acolhimento de órfãos. 
Na época, em Hiroshima, professores e budistas lideraram os movimentos em prol das crianças. Em Nagasaki, a iniciativa partiu dos católicos romanos.
No dia 23 de dezembro de 1945, foi criado o Hiroshima War Orphans Foster Home, Casa de Auxílio aos Órfãos da Guerra de Hiroshima, associação voltada para acomodar órfãos e fornecer educação em ambiente familiar.com a finalidade de proporcionar um lar às crianças que tinham perdido família e parentes.

Adoção moral foi uma campanha lançada nos EUA, pelo jornalista político norte-americano, professor e defensor da paz mundial americana, Norman Cousins, para que os cidadãos comuns pudessem ajudar e levantar as crianças órfãs, que perderam família e parentes, vítimas da bomba.
Norman Cousins, como jornalista e defensor da paz, visitou o Japão, em agosto de 1949, inclusive o Hiroshima War Orphans Foster Home.
O encontro com as crianças o inspirou a iniciar uma campanha nos EUA. A campanha teve adesão de cidadãos norte-americanos, que fizeram a adoção baseados em fotos e perfis dos filhos.

Na época era proibida a migração de japoneses aos EUA e, consequentemente, a adoção de japoneses, que os tornariam americanos naturalizados. A campanha permitiu que, pelo menos, pudessem ajudar essas crianças órfãs.

U.S. Hiroshima Peace Center Association, associação fundada em março de 1949,  intermediou a captação e transferência das doações entre os americanos e os filhos morais.
A U.S. Hiroshima Peace Center Association é uma associação que foi fundada, após a visita do pastor Kiyoshi Tanimoto, da Igreja Hiroshima Nagarekawa, aos EUA relatando a terrível realidade vivida pelo povo de Hiroshima. Além do pastor Tanimoto, Norman Cousins e John Hersey - nascido da China, filho de missionários -, jornalista, escritor, romancista do livro "Hiroshima", eram diretores da associação. O pastor Kiyoshi Tanimoto era japonês, tendo estudado em universidade nos EUA.

Primeiramente, as adoções morais foram destinadas aos abrigados da Hiroshima War Orphans Foster Home.
No final de março de 1950, 71 crianças foram adotadas pelos "pais morais". 
Pais e filhos comunicavam-se por carta; as dores da culpa pela bomba eram ali expressas às crianças. 
Alguns pais chegaram a visitar seus filhos adotivos em Hiroshima; pais e filhos adotivos despediam-se com muita tristeza, no retorno.

O número de pessoas que desejavam ser "pais morais" cresceu e as ajudas foram expandidas para outras creches de Hiroshima e, mais tarde, destinados para outros órfãos que não pertenciam a nenhuma instituição. Em final de 1953, eram 409 crianças adotadas, não somente vítimas da bomba, mas também órfãos de guerra e crianças de famílias pobres.

Um programa denominado "Ayumi" foi criado em 1952 no Japão, liderado por Arata Osada, para dar apoio aos adolescentes.

A campanha desapareceu em 1960, quando essas crianças tinham atingido a idade adulta e a fim de se sustentarem. 
No entanto, a campanha serviu para dar origem a outras, como programa de apoio chamado Hiroshima Maidens, levando mulheres vítimas da bomba aos EUA, para tratamento médico, bem como campanha de adoção moral entre os japoneses.
A campanha de adoção moral contribuiu para promulgação da lei de socorro ao tratamento médico às vítimas da bomba, denominada Atomic Bomb Medical Relief Law. 

A campanha não daria certo se não tivesse apoios, principalmente dos próprios japoneses em receber a ajuda.

Gishin Yamashita, fundador da Hiroshima War Orphans Foster Home, inicialmente relutou em se envolver na campanha, pela mesma nação que jogou as bombas, deixando tantos órfãos. 
Somente depois de se reunir com 8 pais morais, conversando e sensibilizado com as mesmas dores que esses pais tinham, sentiu a campanha de forma positiva, opinião vista favoravelmente pela sua esposa Sadako Yamashita.

Ichiro Yoshioka, professor da Universidade de Hiroshima, fazia a tradução das correspondências, cartas trocadas entre pais e filhos morais, de 100 crianças. Como eram escritas à mão, sentiu-se incomodado, imaginando todos os pais recebendo cartas com a mesma letra. Perguntou à escola se podia providenciar uma máquina de escrever, que providenciou, 2 meses depois, uma usada. Ajudou as crianças a assinarem suas cartas, guiando as mãos. Além do desafio, foi gratificante para ele sentir o calor das cartas dos pais morais a seus filhos adotivos.

Consultei os sites do Museu de Paz de Hiroshima e do Centro de Paz de Hiroshima, onde encontrei essas informações. 

Curiosamente, a matéria que li no The Wall Street Journal, era um relato da filha do pastor Kiyoshi Tanimoto, onde ela conta que sofreu diversas humilhações na adolescência, quando, nua, tinha que submeter a exames dos efeitos da radiação e, também, que um noivo americano a deixou, dias antes do casamento, pois a família temia que ela não pudesse ter filhos.

Muitos filhos adotivos não lembram exatamente da campanha, porque eram muito novos e, hoje, todos contam com mais de 70 anos. Por sua vez, os pais adotivos teriam, no mínimo, em torno de 90 anos.
Enfim, existem inúmeros relatos desses filhos adotivos, cujos contatos com os pais se perderam com o tempo, porém o sentimento é um só: gratidão!

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