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Lonas de plástico azuis e vilas de papelão: acampamentos de homeless

Orgulho, vergonha, baixa estima, foram os sentimentos que observei ao fazer uma busca pra saber o que significavam aquelas lonas azuis que avistava, de longe, nas frias manhãs de janeiro, em Shinjuku, Tóquio.


Estava hospedada em Shinjuku, na área em que ficam os prédios dos governos de Tóquio.
Tomava um ônibus até a estação e, sempre que parava no cruzamento, avistava algumas barracas e pessoas naquele local.


A imagem ficou gravada e todos os dias olhava para aquele lado, com um sentimento inexplicável, misto de curiosidade, impotência, preocupação... imaginando que fossem homeless.
Não dava para parar, pois o ônibus seguia direto até a estação, além do fato de que era um trajeto perto de ônibus e longe a pé. Em Tóquio, tudo é distante, todo tempo é precioso. Como se tratava de poucos dias, não poderia perder muito tempo.

Shinjuku, um dos bairros de Tóquio, tem um imenso terminal - que concentra várias linhas ferroviárias, metrô, ferrovias privadas, ônibus - considerada a estação mais movimentada do mundo.

O bairro é conhecido pelo entretenimento, servido por uma enorme rede gastronômica e vida noturna.

É lá também que fica Kabukicho, famosa área de entretenimento e distrito da luz vermelha, com clubes hostess, hotéis do amor, casas noturnas. O nome deve-se ao plano de construir, no final da década de 1940, teatro kabuki. O teatro nem chegou a ser construído, mas o nome ficou.

Shinjuku é detentora dos mais altos edifícios, hotéis de primeira e também das torres gêmeas da Tokyo Metropolitan Government Office Building, além de outras sedes de órgãos governamentais.

Grande centro comercial e administrativo são as principais referências deste local.


Shinjuku Chuo Koen ou Shinjuku Central Park é um parque localizado em frente ao prédio do governo de Tóquio.
Dentro e ao redor do parque pude avistar muitos homeless - imagem contrastante da pobreza e de uma área onde grandes negócios são realizados diariamente - reforçando minha desconfiança que a imagem inicial fosse um acampamento de homeless.

Na imagem abaixo, alguém tomava seu café da manhã e escondeu, percebendo que tiraria a foto

O grande ciclo de pobreza, no Japão, deve-se à década perdida (Ushinawareta Junen), após o estouro da bolha de 1990.
Foi também uma época em que muitos brasileiros dekasseguis, em função do desemprego, sofreram com a crise no Japão.


Eles podem ser vistos em diversos locais espalhados no centro, perto de estações, praças, embaixo da ponte.

É grande o número de homeless no Japão, mas nem todos se hospedam nas ruas ou em acampamentos.
Muitos deles ficam hospedados em cafenet que, a princípio, foi criado para os clientes que perdem o último trem, no entanto, passou a ser mais uma opção de moradia, com direito a quarto individual, chuveiro, refrigerante e internet.

A maioria dos homeless são homens, de meia idade.
Poucas mulheres se tornam homeless. Dizem que as famílias dão mais apoio às mulheres do que aos homens.
Empresas japonesas preferem manter em seu quadro os homens casados aos solteiros, porque acreditam mais, devido à responsabilidade que tem com suas famílias.

Ao contrário do que se pensa, não são bêbados, vagabundos ou mendigos, em sua maioria. Muitos executam trabalhos temporários como agricultura ou coletando e revendendo embalagens recicláveis. No Japão, somente empresas credenciadas podem fazer coleta de material reciclável, no entanto tem sido a fonte de renda para sobrevivência de muitos deles.
Também nem sempre são maltrapilhos e muitos mantém suas casas de lonas azuis organizadas.
Muitos deles, um dia tiveram alguns bens e, em função do desemprego, resolveram deixar suas casas, alguns por orgulho, outros por vergonha e aqueles que acharam não merecer, como uma espécie de autoflagelo.
Em contrapartida, existem também muitas instituições religiosas e filantrópicas que ajudam os homeless.

Existem diversos acampamentos de homeless espalhados pelos distritos de Tóquio, em grandes parques localizados em Shinjuku, Ueno, Yoyogi, Shibuya, Ikebukuro, Gokokuji.

Obtive várias respostas, daquelas cenas, via net, que posto a seguir, é só clicar nos links.

Aqui estão algumas imagens, via Flickr, da Vista do acampamento, a partir do parqueAcampamento com algumas barracasBarracaVarais com roupas lavadas dos homeless, que vivem em Shinjuku Central Park.

Em Ueno: Vista geral do Acampamento em UenoAcampamento com algumas barracas e mais barracas.

Esta é uma imagem do acampamento perto de um rio em Tóquio.

As maiores cidades japonesas convivem com esse problema há anos.

Nagoia também tem seus sem-tetos dormindo em locais públicos.
Sobre homeless em Nagoia, fiz uma postagem, sobre grupos que distribuem sopão em praças.

Certa vez, ouvi uma conversa entre eles, que me tocou profundamente. Um deles se despedia de um colega homeless, dizendo que teria que ir logo, pois ainda não sabia onde dormiria naquela noite. 
Em geral, são catadores de latinhas ou outros recicláveis

Não pode faltar ração para o sempre melhor e fiel amigo



Osaka é onde está o maior número de sem-tetos do Japão.
Lá, estão por toda a parte, sob pontes ou em ordenados acampamentos, uma delas no Castelo de Osaka.

Apesar de postados recentemente, os vídeos abaixo contém imagens de 2006.
PublicBlue Part 1. from [AHA] on Vimeo.

PublicBlue Part 2. from [AHA] on Vimeo.

PublicBlue Part 3. from [AHA] on Vimeo.


Nesta matéria, a BBC mostra a organização dos homeless de Osaka,  que formaram uma associação, bem como várias imagens.

Lendo este texto, pude entender melhor como são os homeless do Japão.

Takashi e Maru
Foto site Tokyo Weekender

Mas foi a história de Takashi e Maru - <<< clique, não deixe de ler - que me emocionou. 
Por trás de um sem-teto, existe um ser humano, com história de lutas, vitórias, fracasso e orgulho. 
A essência jamais será afetada, seja morando em um palácio, sob lonas azuis ou aldeia de papelão.

O cineasta KMLo conviveu com os homeless para fazer o documentário "Homeless in Japan". <<< clique e leia.
KMLo entrevistou homeless ex-acionista da JAL e ANA - duas grandes empresas aéreas japonesas -, além de ex-diretores de empresa, ex-gerentes de publicidade. Esses personagens reais estão no documentário, no trailer abaixo:



A maioria das histórias - aqui referenciadas - tem alguns anos, além de muitas outras não contadas, nas diversas províncias do arquipélago.
É um problema que o Japão vem enfrentando há muito tempo e vem se alastrando, cuja realidade não é apenas de países pobres ou emergentes. Embora de modo diferente, existe em qualquer lugar do mundo.

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Comentários

IndiaBranca disse…
Caramba, mana! O Japão seria o ultimo País onde eu pesaria existir essas coisas, ó!
Fernanda disse…
trite mesmo a vida dessas pessoas!!
Sissym disse…
Querida Leh,

Infelizmente todos os países, incluindo os mais ricos, tem a classe mais pobre. Pelas suas fotografias dá para notar o enorme contraste e isso choca mesmo.

Eu me lembro ver gente assim pelas ruas de Berlin. A minha mãe explicava que eles ganhavam dinheiro do governo para uma vida mais digna, mas preferiam ficar nas ruas.

Um beijo!

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