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Crise ou não?



De um filme de 4 anos atrás - que sinto estar vivendo já há alguns meses - faço a seguinte pergunta: estamos entrando em uma nova crise?

Postei uma pergunta no Twitter e a única resposta obtida foi a de que governos e empresas estariam tomando suas decisões. Não pude debater o assunto - limitado ao tempo e aos 140 caracteres - contando momentos, histórias e sensações que vivi e parecia estar passando por tudo novamente, que conto aqui resumidamente:

Trabalho em uma indústria de peças, com filiais nos EUA, China e outras 3 no Japão (uma das quais estou).
Nela, em 2008, tinha 3 barracões.
Uma dos barracões fabrica peças exclusivamente para exportação aos EUA (principal motivo da crise na época, embora a bolha ainda não tivesse estourado).
Neste barracão - que passarei a denominar barracão 1 - trabalham somente japoneses natos.
Nos outros 2 barracões - que citarei como 2 e 3 - são compostos somente por brasileiros, agraciados,  digamos assim, com 3 horas extras diárias, além de sábados e domingos.
Estrangeiros, principalmente brasileiros, preferem fazer horas extras, devido ao acréscimo legal nas horas e, obviamente, melhor rendimento salarial.

No início de 2008, o barracão 1 começou a sentir os diagnósticos da crise. As exportações diminuíram e muitos foram remanejados para outras filiais.
Nas outras 2 alas, já se falavam em baixa de produção e corte de horas extras a partir de novembro.

Foi tudo conforme previsto. Algumas demissões, em novembro/2008, a pouquíssimos brasileiros e à maioria dos japoneses do barracão 1, contradizendo o que muitos citavam como xenofobia ou preconceito. A demissão ocorreu por escassez de pedidos.
Mas a empresa, felizmente, optou pelo social, evitando demissões em massa. Reduziram horas pouco a pouco, dividindo-as entre todos e, em janeiro de 2009, estávamos trabalhando 5 horas em 4 dias na semana. Era o suficiente para que, pelo menos, todos pudessem manter a sobrevivência.

A crise já tomava conta do arquipélago e muitos brasileiros no Japão foram demitidos.
Quem viveu a crise sabe que foi um dos maiores momentos de mobilização da comunidade brasileira no Japão.
Houve passeata, NPOs de auxílio, ajudas das mais diversas formas para ajudar a enfrentar e superar a crise que assolava o país.



Passado algum tempo e, aos poucos, o Japão começou a se levantar e, assim também na fábrica onde trabalho, momento em que as 8 horas ficaram garantidas. É claro que junto chegou a deflação e uma boa estratégia fez com que a empresa reduzissem valores, para garantir que a fábrica - por menor que fosse o lucro - não parasse, ganhando uma concorrência.
Assim, aos poucos, a normalidade estava voltando. Acredito que a fábrica onde trabalho foi uma das primeiras empresas a recomeçar a contratação de funcionários. Tudo voltou ao normal, com muitas lições.
De vento em popa, a fábrica aumentou seu espaço construindo mais um barracão, o quarto.



2012

Sinto há alguns meses, que o filme começou a rodar novamente.
Os japoneses do barracão 1 foram remanejados para outras filiais que estavam com a produção atrasada.
Também faz alguns meses que o barracão 3 fez um remanejamento, alocando alguns funcionários ou diminuindo horas extras.
Isto também está acontecendo na matriz, onde há revezamento dessas horas extras ou simplesmente sem horas extras em determinado setor.

Ainda pelo Twitter, li várias postagens de cortes de funcionários e de horas extras.

Ainda existem fábricas que estão com a produção alta,  assim como em determinados setores do local que trabalho.

Mas o pior é que recomeçam as buscas por vagas de trabalho, ocasionadas pela demissão por escassez de produção.

A crise européia pode afetar qualquer país do mundo. A China - vi na TV japonesa que adquiria 20% da produção japonesa - está boicotando produtos japoneses.

Quero muito estar errada, não sou expert no assunto, mas com todos esses sintomas faço a pergunta:  são indícios de uma nova crise, sem a proporção da de 2008?
Passageira?
Espero que seja apenas uma fase, mas me preocupa muito.

Comentários

Stefani Vaz disse…
Primeiramente, se tem uma coisa que aprendi é que todas as crises são passageiras, é um ciclo pelo qual a economia sempre passa. Exemplificando, a curva seria assim: /\/\/

É fato que a produção industrial está refletindo a desaceleração econômica global, tanto que o próprio presidente do Banco Central japonês já demonstrou sua preocupação.

A tendência é a produção industrial diminuir mesmo, devido às exportações que estão sendo prejudicadas, principalmente pela desaceleração na China, o qual você mesma citou.

Sem dúvidas que a situação do país é complicada, pois o Japão já caiu na chamada “armadilha da liquidez” no desespero de tentar ativar a economia anteriormente, então se continuar expandindo o estímulo monetário para ajudar nas exportações haverá recessão e ainda tem o problema da deflação.

Eu não tenho conhecimento suficiente para dizer se é ou não a crise batendo na porta novamente. Mas, com o cenário global influenciando de tal maneira internamente e com o governo no impasse, é mais sensato pensar que uma crise pode sim vir a estourar. Contudo, é como eu disse no início, as crises vão e voltam, e o Japão todos nós sabemos é um exemplo de superação em qualquer sentido. Além disso, o Banco Central do Japão tem uma visão positiva, apesar de já prever uma diminuição no crescimento econômico.

Não sei se ajudei em alguma coisa. Para falar a verdade, enquanto escrevia, tive mais dúvidas do que certezas. Vou conversar com um professor da universidade e depois comento aqui novamente.
Arwin_jp disse…
Auto pecas em geral caiu muito a contratacao, dolar subindo e crise com a china eu acho tudo temporario. Minha grande preocupacao eh saber vai virar agora q vietnemitas e tailandeses estao entrando nos lugares q eram antes de bras. Placas em portugues sao substituidas por linguas dos novos nativos e falantes do idioma local.
Soma se isso a expansao das multinacional automobilisticas p paises emergentes deixando aqui somente a parte administrativa.
Ai somando tudo isso q vc disse tudo o q sinto e vejo sao incertezas de um pais em crise. Algo q lembra muito meu pais natal ....

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