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Um pulo até o Japão, por Martha Medeiros


"Quando comentei com amigos que iria ao Japão, alguns duvidaram da minha sanidade, mas fui e voltei ilesa. Os tremores de solo foram poucos e a radiação não atormentou meu sono. Não sou de me impressionar facilmente, ainda que o Japão o tenha conseguido, mas por outros motivos.

Ninguém fala inglês, nem mesmo a meia dúzia que acredita que fala. Então, o jeito é levar uma dose extra de bom humor e alguma noção de mímica. E, se possível, levar também uma filha que arranhe o idioma japonês. Julia foi minha tradutora, intérprete, guia e mentora espiritual. Sem ela, eu não teria saído até hoje da estação de metrô Shinjuku, a mais movimentada do mundo, onde circulam cerca de 2 milhões de pessoas por dia.

Tudo é mega em Tóquio, e isso incluiu a disciplina, o respeito e a eficiência. Ninguém atravessa a rua fora da faixa de pedestre e todos aguardam o sinal abrir mesmo que Buda em pessoa venha dizer que nenhum carro surgirá em menos de meia hora. Não importa: espera-se. Tóquio, a capital mais eletrizante do planeta, calmamente aguarda a sua vez.

Há filas para tudo. Quase entrei em uma para ver um panda gigante no maior parque da cidade, mas preferi dedicar meu olhar aos magníficos templos que servem como oásis em meio ao futurismo da cidade. Vi prédios que desafiam a arquitetura convencional e constatei que mega é também a gentileza das pessoas. É o que há de maior em Tóquio: a educação.

O fato de eles entregarem o troco, devolverem seu cartão de crédito ou alcançarem qualquer coisa sempre com as duas mãos é de uma cordialidade comovente. Repare bem: usar as duas mãos é uma reverência, não uma banalidade. Um pequeno hábito que conceitua a mentalidade de uma nação.

Com mais de 30 milhões de habitantes, Tóquio é uma metrópole silenciosa, onde a pressa convive harmoniosamente com a paciência. Não ser um povo fominha é o que os torna tão avançados.

Claro que tudo que é muito contido fica devendo em vibração: minha filha foi a três shows de rock e estranhou a plateia ser também tão disciplinada. As pessoas ficam em pé na pista sem tocarem uma nas outras, respeitando uma distância protocolar, e as reações de entusiasmo são praticamente cronometradas pela banda, não se dá um único u-hu fora de hora. Japas não são barulhentos nem quando deveriam.

Até pensei em ir com ela, mas preferi dedicar meu tempo aos pagodes.

Foi uma viagem transcendental. Voltei devota de tudo o que eu temia não existir mais: o sorriso fácil, a consciência de que o coletivo só funciona quando cada um faz sua parte e a delicadeza como forma permanente de tratamento. O Japão está distante de nós não só por questões geográficas e de fuso. Está bem mais do que 12 horas a nossa frente. Está anos-luz à frente.

Uma ótima quarta-feira para você"

(Do Jornal Zero Hora, de 01.06.2011 - Edição 16717)

Transcrevi o texto de Martha Medeiros a respeito do Japão e seu povo, pois dispensa qualquer comentário adicional. É exatamente como ela descreveu.

Martha, que se despediu da Coluna Donna do site Zero Hora, agora é cronista nas versões impressas do ZH e O Globo.

Ela já havia escrito um texto sobre a educação e comportamento dos japoneses no Jornal Zero Hora, de 16.03.2011 - Edição 16641

Para quem não leu, segue aí um Copy&Paste do texto, encantem-se:


"Saques e saquês

Tem uma música do Capital Inicial cujo refrão pergunta “O que você faz quando ninguém te vê fazendo?” A partir daí, a letra fala de meninas que posam nuas na frente do espelho e de garotos que dão uns amassos nas namoradas sem que os pais delas percebam. Mas é uma pergunta interessante não só para os adolescentes, e sim para todos nós. O que faríamos se ninguém pudesse nos ver? Para além das fantasias sexuais, a resposta pode revelar também nosso caráter.

Jornalistas que estão no Japão têm revelado seu pasmo diante da tragédia provocada pelo terremoto e pelo tsunami, só que a perplexidade deles não se resume às consequências gravíssimas que todo mundo viu pela tevê: eles estão pasmos também com o comportamento do povo japonês, que não está saqueando lojas destruídas e tampouco casas abandonadas às pressas pelos seus conterrâneos. Não é surpreendente?

Ninguém deveria ficar surpreso com atitudes corretas, mas ficamos, porque a gente se acostumou a ver cenas de pessoas que aproveitam circunstâncias de vulnerabilidade para invadir supermercados, levando tudo o que podem, sem pensar um segundo que aquela mercadoria tem dono, ele apenas não está de vigília. É o que você faria também se ninguém pudesse te ver?

Quando um caminhão tomba na beira de uma estrada, surgem criaturas de tudo quanto é lado para recolher a carga espalhada pelo asfalto, e acabamos considerando isso uma espécie de redistribuição de renda. Afinal, são pessoas necessitadas que estão se virando como podem etc etc. Com gente olhando ou sem gente olhando, a surrupiada acontece liderada por papai e mamãe e imitada pelos filhinhos.

Nos dias posteriores à enchente em São Lourenço do Sul, percebi que a cobertura jornalística destacava também a proteção que o Batalhão de Operações Especiais estava oferecendo aos moradores que tiveram que deixar suas residências. Brigadianos fizeram plantão noite e dia para evitar saques. Ou seja, se não houvesse um policial em frente a uma casa que teve as janelas e portas desobstruídas pelas águas, um sujeito qualquer poderia entrar e levar o que encontrasse. Não é que a Brigada estivesse evitando crimes cometidos por assaltantes profissionais: estava evitando também o impulso de pessoas de bem que não resistem em tirar alguma vantagem quando ninguém está de olho.

Quem é que determina o limite do que se pode e o que não se pode fazer quando não há vigilância? Esse limite é determinado pela cultura e pela educação de um povo. Respeito à propriedade alheia é algo que devemos ter em todas as circunstâncias – todas. Se a propriedade deixou de ficar definida, ainda assim a pilhagem segue sendo uma atitude pouco nobre. Mas há culturas e culturas. Na terra do saquê, não há saques. Em outras, onde o exemplo de gatunagem vem de cima, a ocasião faz o ladrão."

Comentários

Amiga , tudo bem ?
Estou com problemas no meu blog http://massoterapeuta-no-rio-de-janeiro.blogspot.com/ do qual vc é seguidora , este blog está sendo clonado por isso criei um novo blog e te convido para continuar me seguindo . O novo endereço é http://massoterapeuta-no-rj.blogspot.com/

Te agradeço desde já
abs
Francisco
Leh disse…
Amigo Massoterapeuta,

Já estou seguindo, acredito que fui a primeira a seguir seu novo blog.

Abs
Celina Dutra disse…
Leh,

Sabe qual o meu maior problema de uns tempos para cá? Juntar dinheiro para ir ao Japão. Todas as pessoas inteligentes e confiáveis que comentam sobre o Japão só falam de um mundo no qual quem preza vida com qualidade gostaria de viver. Só tenho medo de ir e me recusar a voltar.

Obrigada pelos belos textos da Martha Medeiros.

Beijos
Leninha disse…
Minha querida xará Leh,você nem deve se lembrar mais de mim,desde a época das catástrofes ocorridas aí não pude me comunicar com a amiga,mas agora estou de volta...tudo bem contigo?
Para vc se lembrar um pouco:sou a Leninha do blog Sonhos e encantos e quando te chamo de xará é porque meu nome também é Helena,leninha para alguns,Lena prá outros e Leh para meu irmão e uma amiga muito querida.
Também amo a Martha Medeiros e as crônicas que ela escreve e esta sobre o Japão ficou perfeita,como tudo que ela faz,aliás.Bela escolha.Parabéns!!!
Bjssssss,Leninha
Nina Pilar disse…
seu blog é sensacional já estou seguindo, os textos um primor, adorei, a martha é maravilhosa.

vou voltar sempre.

beijo grande
Lahe disse…
Eu amo Martha Medeiros, e adorei o texto. Descreve exatamente, ou quase, a personalidade dos japoneses. Bom texto, mamy!

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